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誰もいない空の中に

dentro do céu que não tem ninguém

ぽっかりと浮かぶ雲

as nuvens flutuam

少しずつ消えてゆく

desaparece pouco a pouco

Suzuki Tsunekichi1

 

A gente matávamos bentevi a soco.

Manoel de Barros

A lua flutua, recente: forma de construir um desaparecimento de nossos fantasmas. Como se a imagem chegasse cedo ou tarde demais, Isabê dobra a figura num movimento onde, se primeiro não estabiliza como representação, em segundo opera como ocorrência frágil, sempre próxima do apagamento. Se a matéria aqui se constitui justamente no que se perde, o que ainda tocamos como “ver”? Ao produzir uma inscrição instável na matéria pictórica, em vez de presença plena, um regime de persistências parciais nos aloca. Se os fantasmas não são aquilo que vemos, mas aquilo que condiciona o ver, onde começa - e onde termina - a imagem? Camadas, restos, retornos, falhas: se o que vemos é sempre o que já começou a desaparecer, o ofício de pintar aparece menos como expressão: um trabalho de fricção: insistir, cobrir, raspar, recalibrar a presença até que ela se torne vestígio, afinal, se o ofício de pintar for menos fazer aparecer, mas fabricar um atraso para o olhar tropeçar, e o desaparecimento é o modo como a imagem existe, não é a “presença” que vira uma superstição do olhar?

Febraro de Oliveira

 

*Febraro de Oliveira é escritor, poeta, performer e professor de escrita literária. Autor do livro de poemas Caixa d’Água (Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura) e da novela Uirapuru (reconhecida por prêmios no Brasil e no exterior, como Leia MS, TCD Awards – EUA – e LAD Awards – Peru –, além de ter sido selecionada para o vestibular da UFGD). Livreiro e editor da Hámor Livraria e Edições, também atua como curador e produtor cultural, desenvolvendo projetos de literatura, dança e performance. Seu trabalho se inscreve na confluência entre experimentação literária, pesquisa histórica e práticas coletivas de criação.

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